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Camisa de força



Camisa de força

Edgar Flexa Ribeiro*



A Universidade Federal do Rio de Janeiro renuncia à sua autonomia, à sua autoridade acadêmica, à sua independência e à sua história quando desiste de afirmar suas peculiaridades e características no processo de seleção de seus futuros alunos.


Limitando-se a um modelo de prova única que pretende avaliar em plano nacional o ensino de nível médio, a UFRJ interrompe um longo processo de aperfeiçoamento que a conduziu a ter um dos mais competentes sistemas de avaliação de candidatos no país, que foi fundamental ao longo de anos para construção de sua identidade como instituição.


A UFRJ adere espontaneamente e com exclusividade ao ENEM. Considera-se assim equivalente a toda e qualquer outra instituição de ensino superior, entende como suficiente um exame universalmente aplicado, e não está mais estimulada a acrescentar nada ao processo de seleção de seus alunos. Equipara-se, descaracteriza-se, anula-se e deixa para trás anos de experiência.


E o faz por vontade própria. É uma renúncia.


As razões para isso não foram suficientemente explicadas. Porque a UFRJ tomou essa decisão? Que razões ela tem agora para abdicar de uma identidade que gerações construíram durante tantos anos? A UFRJ não tem mais nada a dizer quanto à seleção dos alunos que concorrem a seus cursos? Nada?


Custa a crer.


O ENEM agradece. Recebe, com essa decisão de uma instituição como a UFRJ, um importante aval. Se o merece ou não, é o que se verá.


Mas, desde logo, se a UFRJ não mais tem nada a dizer sobre os alunos que freqüentarão seus cursos, que razões terão outras universidades para procurar construir uma identidade própria?


O curso natural das coisas, pelo que se vê, conduz todo esse país, de proporções continentais e rica diversidade, a ter um único modelo de prova para ingresso no ensino superior - centralizadamente concebido, administrado e aplicado.


Mas o ENEM não é obrigatório dirão. Talvez não seja, mas essa abdicação da UFRJ, sem razões claras e motivação convincente, contribuirá para fazer do ENEM o único caminho que um jovem brasileiro terá para ingressar numa universidade.


Cada vez mais o jovem brasileiro bem preparado será aquele que responde ao que o MEC pergunta da forma que o MEC quer.


Uma respeitável camisa de força, um ponto de referência que tenderá aos poucos a determinar todo o ensino no país. Um formidável retrocesso.



*Edgar Flexa Ribeiro é educador, radialista e presidente da Associação Brasileira de Educação.


Publicado originariamente no O Globo – Blog do Noblat.

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